quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Colecionadora de saudades



Eu, que coleciono saudades, não consigo entender o fundamento de um dia como esse de hoje, de finados. Homenagear os mortos é para quem não mantém laços, porque os que mantém nunca consideram realmente mortos os seus.

Não há, para mim, a possibilidade de celebrar a ausência. Não há nem como justificar a falta que uma pessoa é capaz de fazer.  Muito menos de me conformar com algo que me foi imposto e para sempre.

Talvez, de todos os dias do ano, de todos os anos, de toda uma vida de saudade, este seja o único dia em que eu me dou o direito de não pensar naqueles que já perdi. Me recuso a homenagear qualquer coisa ligada à morte.

É verdade quando dizem que para tudo nesta vida há solução, exceto para a morte. Ela é covarde e fria. Ela tira de uma vez e não oferece nenhum tipo de redenção. E pior do que isso: não dá nem uma explicação. A vontade dela é suprema e absoluta e não há defesa contra ela.

A morte é feia. É ditadora. É a causadora de nossas maiores dores, e mais de uma vez. Ou, como é o meu caso, mais vezes do que se pode aguentar.

Falo de uma dor que ela nos oferta, lancinante, cruel, devastadora e que dura, simplesmente, para sempre. Um presente de mau gosto que você não quer, mas é obrigado a carregar até seu último dia. E que pode, como se não bastasse, se acumular com mais ‘presentes’ que ela é capaz de trazer.

Eu, que acumulo datas vazias, inundadas de lágrimas jamais consoláveis, entendo como ninguém, graças a morte, de gritos silenciosos; de dores improferíveis; de perdas irreparáveis; de um vazio que não se pode preencher jamais.

Entendo dessa injustiça que é perder, de um segundo para o outro, um alguém. O alguém. O nosso tudo.

E mais de uma vez. E mais, muito mais, do que um alguém.

Graças a morte, entendo de distâncias. Entendo de silêncios.

Sim, ficam as lembranças. E há também as flores. Poesias para enfeitar a dor. Mas tudo isso só faz doer mais.

As lembranças doem a cada amanhecer e se estendem ao longo do dia, em cada um daqueles instantes em que sabemos que falta alguém ali para provar aquele sabor, para ver aquela vista, para sentir aquele cheiro, para repartir aquela vida.

Hoje, só hoje, não chorarei a ausência de ninguém. Tenho todos os outros dias do ano para isso e eles já me bastam. E os lavo com minhas lágrimas pelos que se foram, pelos que perdi e tudo o que levaram com eles, não pelo que a morte é.

Não irei homenagear os mortos porque seria como festejar minha própria morte. A que acontece, aos poucos, aos pedaços, cada vez que sou obrigada a me afastar dos meus amados.


E mente quem fala em despedida. Não há. Nunca há.  Quem dera que houvesse.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Olhar para fora

As vezes, olhar para fora é tudo o que precisamos para aprendermos a olhar para dentro.

Tanto se fala sobre a importância de desbravarmos nossa alma e nos conhecermos profundamente. E eu concordo. O autoconhecimento é requisito básico para a liberdade, a autonomia, a independência. Quanto melhor nos conhecemos, mais bem nos posicionamos diante do mundo, dos outros seres humanos e seres vivos; e mais podemos oferecer a tudo que está à nossa volta. Quem bem se conhece, mais saudável é.

Só que ninguém nos dá uma receita para treinar esse olhar de dentro, uma vez que essa tarefa é uma das mais árduas e nunca tem fim. Se bem que é compreensível. Tudo que é íntimo exige métodos igualmente íntimos: cada um de nós tem seu jeito próprio de ver e aprender.

Mas se conselhos ainda servem para alguma coisa, aí vai o meu: olhe para fora!

Gosto quando chove à tardezinha. Eu fico na janela e me perco admirando as mecânicas da natureza. O som da chuva, mesmo quando bem forte, acalma; a alegria das plantas é algo que dá para sentir; e alguns pássaros, em particular, aguardam ansiosamente por isso, porque enfeitam o céu numa revoada numerosa e impressionante. Bailam e bailam debaixo das gotas caindo do céu que é todinho deles.

Gosto de observar os Quero-queros que pegaram nosso pátio para eles. Esses fazem ninhos no chão – o que é muito estranho! Eles, que podem refugiar-se e proteger suas crias nos locais mais altos, escolhem justamente o chão, e totalmente ao relento. E mesmo que caiam granizos, que a chuva venha acompanhada de um vento bravo, eles permanecem lá, imóveis, acima de seus ninhos, como se nada os abalasse. Assim que a chuva para, eles se levantam, sacodem a água das asas e voltam a gritar e rodear o terreno que agora é deles. Aguentam o frio também, a geada, e no outro dia, lá estão eles.

Que bom! Porque eu vou, com certeza, voltar a olhar lá pra fora para me abastecer de informações sobre mim aqui dentro e cada um desses elementos, essas criaturas, possuem uma responsabilidade imensa nesse meu crescimento, nesse exercício de admiração e adoração. Quando faço isso, sinto amor, sinto compaixão, sinto compreensão.  Sinto gratidão! Uma onda de paciência me invade e, como num passe de mágica, parece que entendo a maioria dos percalços da vida.

Pois é. Quando preciso me olhar por dentro eu sento no meu terraço e olho lá pra fora. Vejo os cachorros correndo pela grama e consigo até gargalhar com a diversão deles. Eu vejo as árvores carregadas de frutas e, imediatamente, sou impelida a elas. O sabor da fruta colhida e comida na hora abastece com dignidade qualquer lembrança do que realmente é bom.

Eu olho para a rua, as pessoas passando com crianças, carrinhos de bebê, na maior simplicidade. “Como será que elas estão?”, logo penso. Vejo os carros passando por cima do pontilhão. “Que música será que está tocando em cada um deles?”, me pergunto. Sem querer, sou levada a uma oração que pede, somente, que todas estejam bem e que cheguem bem em suas casas; que a paz esteja presente em seus corações; que a bondade seja asfalto em seus caminhos.

Nada disso é programado. Nada disso é intencional. Mas olhar para fora faz de mim, sem dúvida, uma pessoa melhor. Especialmente quando a chuva cai e faz coro a essa minha mania de poetizar a existência. Não serei hipócrita de dizer que o efeito é permanente. Eu também tenho dias bons e maus, tenho gentileza e maldade dentro de mim, perdões que ainda são difíceis de conceder, mas a essência disso tudo é, sim, permanente. Ela vai compondo a enciclopédia secreta que todos nós vamos preenchendo na alma ao longo da vida com o que aprendemos. E esse tipo de aprendizado, esse que a gente sente na pele, é o melhor de todos, porque não dá pra esquecer.

Espero que meu conselho sirva para você. Quando precisar se ver por dentro, se conhecer melhor, identificar o que te emociona, o que te eleva, procure perceber o que sente quando olha para fora, para a vida acontecendo bem na sua frente, tão simples, tão objetiva. Veja se algo ali te traz paz, te faz querer se dar aqueles minutos, só isso já revelaria muito, muito mesmo. E se sentir gratidão, ao menos um pouquinho que seja, meu amigo, essa minha fórmula boba deu certo pra você também, porque esse é o melhor sentimento que essa jornada tem a ensinar!

terça-feira, 17 de maio de 2016

Tempo

Tempo: a poesia da existência; a ameaça da existência. O mistério e a resposta universal. O prazo e o infinito. Tudo no mesmo invólucro de vento.

Tempo: o confiável impalpável. Invisível certeiro. Quase sempre traiçoeiro. Inquestionável tempo de ser. Do ser. Era mutante que nunca passa, mas que faz tudo passar.

Tempo: agora; ontem. Amanhã, talvez – para você, pois o tempo é certo para ele mesmo. E para a história, vital.

Uma nuvem de poeira. Um sopro. Um suspiro curto, ou as vezes demorado. Um arrastar de ossos. Um suplício. Um prêmio. Tempo: um milésimo de segundo por vez até que o relógio pare – para você, nunca para o tempo.

Nunca pára o tempo. Nunca finda o tempo. É ele que faz o findar. Das vidas, das eras, dos sonhos, das ilusões, das crenças. Dos erros e dos acertos. O tempo é o vendaval mais sublime de que se ouviu falar.

Tempo: condição suprema à vida. E à morte. Aliado das épocas, precisa te desintegrar para que elas sobrevivam. Porque o tudo é a prioridade. O tempo de ser só pode existir e tornar-se infinito através do ser, finito. Morto pelo tempo; vivo pelo tempo.

De tão abundante em si, torna-se escasso o raro tempo. Mas só para quem não é vento. Nem suspiro, nem nuvem. Nem firmamento.

E em troca de nossas vidas curtas, ganhamos... tempo! Uma ilusão de tempo. Uma fração do que tem o tempo. Um breve suspirar nessa existência. Uma única e implacável chance de fazer história e, quem sabe, se firmar no tempo.


Pelo menos por um tempo. 

sexta-feira, 20 de março de 2015

Amor silencioso


Alguns amores precisam ser silenciosos. Não podem ser demonstrados, cantados, recitados, declarados. E esses amores costumam ser dos mais imensos. Incuráveis. Mas é que algumas pessoas não estão preparadas para eles. São pessoas que não estão prontas para serem amadas porque, simplesmente, não sabem amar.

Como ter condições de acalentar justamente tão nobre sentimento sem conhecê-lo?

Então é melhor silenciar-lhes o afeto exacerbado, o cuidado que forçosamente é dedicado somente em orações. Súplicas para que estejam bem onde quer que vão; para que, de uma vez por todas, aprendam a amar para poderem desfrutar da dádiva que é ser amado.

Tarefa árdua essa. Amar em silêncio é triste e solitário. Mas se o outro lado não puder enxerga-lo em sua magnitude, quanto mais correspondê-lo, então é melhor que seja assim. Quieto. Preservado. Dói menos e permite que o bom sentimento continue sendo nutrido em algum lugar do espaço e do tempo.

Até que se atinja a compreensão dos porquês desse silêncio, o amor passa por estágios adversos e doloridos. Como todo amor não correspondido, gera decepção, mágoa, rancor, amargura. Até que, finalmente, leva à resignação. Sim, amar também cansa. E é nesta fase que se enxerga com clareza a impossibilidade do outro para esse amor agora.

Quem sabe um dia?

Amor de abnegação. Tão gigante que aceita até a deficiência do outro com paciência. Amor.

Talvez se transforme em sonho. Talvez numa ilusão. Ou, quem sabe, cresça e fortaleça e se torne, enfim, um objetivo. A meta de, por tamanha insistência,  tornar-se a chave capaz de destrancar o cadeado que bloqueia a saída para esse caminho tão melhor. Tudo é possível, afinal... é amor.

São formas de metamorfosear o suplício que é ter um presente único e valioso e não poder entrega-lo. É como uma composição genial que nunca foi musicada.  

Triste e assustador. Um paradoxo, já que as pessoas que não sabem amar são as que mais demonstram necessidade de amor. Carentes, medrosas, intimamente solitárias. Surdas. Que tipo de som rodeia alguém que obriga o amor a silenciar-lhe?

Elas não sabem da quietude em que vivem. Pensam que esses ruídos a que se impõem são as únicas melodias existentes. Pensar nisso leva de volta à oração. Que aprendam a ser amados! Que aprendam a amar! Logo!

Quanto tempo perdido de uma vida! Mas não há cura, apenas o tempo e sua mágica através da dor, da solidão. E do vazio. Até que não haja nenhuma outra alternativa a não ser se abrir para o que ainda não se sabe. Deve ser como começar a escola novamente: as primeiras letras, os primeiros números. A fonética da alma.  

É bom imaginar esse instante. Deve ser como nascer de novo. Só que desta vez, nascer de verdade.

E quando isso acontecer, quantos e quantos amores sairão da clausura do silêncio. Quantos pacotes encantados poderão ser, finalmente, entregues. Imagine o desembalar desses presentes... a surpresa... a descoberta. Ali, o tempo não parecerá perdido, e a espera, o silêncio, serão esquecidos. A música da existência ecoará naqueles ouvidos virgens que, a partir de então, estarão prontos para dar continuidade a essa sinfonia até  que nenhum outro de seus instrumentos precise ser silenciado outra vez. 



Palavras-chave: 
amor silencioso, amor, sentimento, poema, poesia, crônica, quietude, coração

domingo, 1 de março de 2015

Paredes

Essas paredes. Quanta história se acumula nelas. Quantas lágrimas e quantos risos. Quantos segredos e pecados. Quantas vidas elas abrigaram, cada qual com sua carga, sua confusão e seu valor.

Quanto há de vida e de morte impregnadas nessas estruturas que conseguem, quietinhas, frias, ir atravessando o tempo?

Quantas ventanias e tempestades elas contiveram do lado de fora?

E quanto mais essas paredes são capazes de suportar?

Quantos sonhos e frustrações elas testemunharam?

E quanto amor elas refugiaram até hoje?

Essas paredes centenárias. É impressionante pensar em algo que há tanto tempo guarda e protege. E como faz isso bem!

Abrigo nos inversos, refúgio nos verões, no entanto, tranquilas e serenas como em um eterno outono sem privar da primavera que não esmorece: sempre vem.

Até hoje, ao longo de tantas décadas, quanto de sono tranquilo elas já proporcionaram. Assim como novos despertares: da infância para a adolescência; da adolescência para a idade adulta; e desta para a dádiva de envelhecer junto e dentro de algo que se deixou possuir. Que cercou tantos ares e sustentou tantos céus. Infinitos céus!

Ornamentadas com quadros, fotografias, cores... suportes a todo tipo de registro da existência e, ainda assim, as mesmas paredes, o mesmo e fiel palco vertical de crenças, esperanças e saudades.

Paredes que um dia alguém sonhou em erguer para guardar tudo que tivesse e tudo o que fosse. E guardaram. Continuam guardando.

Quantas costas já devem ter apoiado? E mãos? E murros?

O projeto de uma casa até pode se tornar obsoleto com o passar do tempo, mas essas paredes jamais perderão sua poesia. São sustentáculos de algo muito maior do que uma casa. São sentimentos, emoções, lembranças, aprendizados sedimentados. Camadas e camadas de história. São feitas de muito mais do que tijolos e barro. Elas são feitas de insistência, de luta pela sobrevivência.

Apesar de serem construídas, entendem como ninguém de nascimentos e renascimentos. Dia após dia, sempre como se fosse a primeira vez, como se fosse a primeira vida que recebe.

Cúmplices incorruptíveis. Protetoras. Guardiãs. Paredes: alicerces de templos únicos, incontestáveis. Templos que, abastados ou humildes, são sempre inestimáveis. Verdadeiras caixas da existência. De muitas existências. Amiga, confidente e testemunha do tempo, certamente.

Será que sofrem com as perdas?

Será que se deixam contaminar com tanta boa e má humanidade?

Será que sentem saudade?

Talvez sejam apenas cofres invioláveis. O melhor e mais leal guardador de segredos.

Benditas sejam essas e todas as paredes, bem como todas as vidas que nelas se resguardam. De todas as vidas que reforçam as camadas dessas paredes, um sentimento lhes é comum: a genuína vontade de para elas sempre poderem voltar. 


Palavras-chave: 
paredes, recordações, lembranças, casa, lar, família, gratidão, amor, proteção, conforto, segurança, lar doce lar, home, sweet home, nosso lugar, seu lugar, nossas paredes

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Tão meu




Você é um erro que eu já havia cometido antes. Um erro que já havia prometido a mim mesma que não cometeria mais, um pedido íntimo para ser menos impulsiva. Mas não deu. Eu não consegui resistir àquele seu jeito de olhar e o mundo de possibilidades que eu enxerguei através disso. Não resisti ao calor, ao sufoco, à intensidade.  Havia uma chama, entende? Mas o tempo passa e apaga as chamas, com sorte deixa alguma brasa apenas. E eu sempre esqueço que o tempo vai passar e destruir essas chamas que eu uso para aquecer mais meus caminhos.

Você é um sonho que eu já havia sonhado antes. Mais uma daquelas fantasias que eu pensei que a idade curaria. Não deu de novo. Sou imune a certas curas e totalmente propensa a certas doenças. A doença do romantismo, por exemplo. É sempre ela que me empurra para os mesmos erros, as mesmas esperanças , efeitos colaterais que até passam, mas que deixam cicatrizes.

Você é uma vontade que eu já senti antes. Uma provocação, uma insistência, um absurdo. Você é a lição que eu pensei que já tivesse aprendido. É meu céu e meu inferno. É mais um dos meus grandes enganos à espera de algo definitivo. Sim, eu gosto do movimento, nunca digo não a ele, mas espero ansiosa por algo que me faça aquietar. E eu quis tanto que fosse você!

Deve ser porque, apesar de tudo isso, você é a presença que eu não havia tido ainda. Você é o retrato de um empenho que eu ainda não tinha experimentado; é a confluência de uma série de capacidades que eu não sabia que possuía. Você é a dedicação, a tolerância, a paciência, a vontade que eu não fazia ideia que pudesse ter.

Você é o encontro que eu ansiava, mas que eu nem achava que vinha. É a maior espera da minha vida! Você é um misto de satisfação e revolta que vem e volta, uma montanha russa instalada bem no meio do meu estômago. As vezes tenho vontade de te bater, mas todo o meu corpo só sabe mesmo é te carinhar.

Você é o amor que eu ainda não havia sentido. Um amor que eu não conhecia, não entendia, não  alcançava. Você é o símbolo do meu inimaginável, o meu maior desafio. Quantas e quantas vezes eu pensei em sair correndo de você! No entanto, são maiores ainda as vezes em que eu não consigo me ver longe disso tudo que você me traz todos os dias. Sim, foram muitas as vezes que eu pensei que isso era qualquer coisa, menos amor. Mas foram incontáveis as vezes em que eu tive certeza de que é o maior amor que eu já pude sentir.

Você é a contradição da minha própria verdade: a chama que o tempo apaga mas que acende de novo quando eu menos imagino; o erro que, de tanto ser cometido, acaba virando acerto; o sonho que se realiza todos os dias; a espera que dói mas da qual não consigo abrir mão. Você é a coragem que se renova conforme o perigo.

Talvez você seja tão meu, mas tão meu, que por isso mesmo causa essa bagunça toda. Afinal, só alguém realmente meu conseguiria desbravar tanto esse tudo que sou eu.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

A dor que me dei


Esta semana eu pisei na bola. Comecei assuntos desnecessários, deixei que as emoções perdessem o rumo, disse coisas que não queria dizer. Tudo porque sinto medo de perder. E quase perdi. Mas como tem acontecido desde que te conheci, aprendi mais uma grande lição.

Assustei-me com o tamanho do amor que sou capaz de sentir. Sabia que era gigante, mas não sabia que era tanto assim. Eu senti na pele a dor de ter magoado alguém tão essencial, tão vital pra mim. Experimentei algo que, até então, não passava de uma teoria romântica. Provei de um sofrimento maior do que a dor do arrependimento, do que a vergonha por ter perdido o controle, por ter cometido o mesmo erro que vivo condenando.

Amarguei horas de um dia e uma noite inteiros com pesar por tê-lo magoado. E por nada e tudo ao mesmo tempo. Nunca havia sentido coisa igual. Saber que te causei algo ruim consumiu meus pensamentos de uma forma assombrosa, machucou profundamente a minha alma. Como doeu! Fiquei sentindo as fisgadas do machucado segundo por segundo e não sabia o que fazer, parecia que aquilo nunca mais se curaria. Eu só podia esperar, e essa espera foi a tortura mais vingativa e cruel. Medo e dúvida. Ansiedade. Arrependimento. Amor.

O alívio só veio depois de ouvir a sua voz normalizada: o sinal de que estava mesmo disposto a me perdoar. Eu realmente não nasci para brigar com você. Não nasci para enxergar defeitos em você. Não nasci para te causar qualquer mal. Pensei que sofria pelas condições que nos cercam, mas esse sofrimento é cócega perto do que senti ao perceber que te machuquei.

Isso tudo serviu para comprovar que o nosso encontro não ocorreu ao acaso. Que a presença de um na vida do outro se deu em nome de algo maior, profundo, poderoso. Que você é parte de mim e que esse contato é anterior ao detectar dos olhos e ao toque das mãos.

Sou humana e sei que na ânsia de acertar ainda errarei outras vezes, mas eu quero que você saiba que a experiência me marcou tanto que nunca mais esquecerei a sensação triste e dolorosa que foi tê-lo ferido. É essa lembrança que me guiará daqui pra frente e me alertará quando eu correr o risco de errar com você novamente. Ela me ajudará a acertar mais e errar menos. É isso que me impedirá de seguir as emoções pobres que as vezes me dominam e me farão retomar a razão da grande verdade da minha vida: o amor imenso  e transformador que tenho por você.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

2013


Eu me vesti de branco e rosa pra você, 2013. 

Pus-me a esperá-lo, espumante na mão, já no quintal de casa. 

E tão logo a sua vez chegou, permiti ao meu coração explodir de felicidade e alívio junto aos fogos que desenhavam incontáveis esperanças no céu. 

A partir de então senti os pulmões mais limpos, a voz mais solta, o riso bem mais presente do que esteve antes. Eu senti uma paz que há muito não experimentava. 

Eu sei que os dias continuam sendo dias, feitos de horas e de minutos, e que passam um atrás do outro, implacáveis. Eu sei que o tempo não para. Mas a sua chegada me fez mergulhar por dentro para procurar e resgatar aquela criança que sabia acreditar no melhor como ninguém. 

E a encontrei! 

Lá estava ela, arrumadinha, sorridente, pronta, como quem aguarda há muito tempo, sem esmorecer, que lhe fossem buscar. Que eu a fosse buscar. 

Eu me vesti de paz e de amor para tudo isso, para a renovação. E por mais que os dias passem implacáveis, como lhes ordena o tempo - indiferente aos fins e aos começos -, eu sei que o impulso do meu acreditar na sua chegada é capaz de promover a mudança que tanto anseio. 

Eu sei que a esperança, apesar de bastante alardeada, é uma força ainda pouco explorada, mas totalmente disponível aos destemidos. Eu sei que um dia deixa de ser qualquer quando vislumbra uma nova época, quando projeta melhores amanhãs, como você fez comigo. 

Vesti-me da paz de espírito, da paz íntima, da paz que enaltece. Vesti-me de amor simples, possível, praticável e, consequentemente, transformador. Um amor muito sonhado e desejado, amor real. E foi assim, vestida, penteada e perfumada pela fé no novo, que corri para abraça-lo no primeiro segundo de sua chegada. 

Festejo esse instante porque ele prenuncia um tempo melhor, feito de causas maiores, de conquistas profundas, de progresso genuíno. Feito da maravilha que é conseguir acreditar novamente: esse acreditar que nada mais é do que a certeza de conseguir.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Sua maldade te revela


A sua maldade te revela.
Mais do que isso: te desnuda.
E quanto mais dela se dedica, mais de você é renunciado perante o mundo. Mas você ainda não pode ver, não é? Pessoas que seguem esse modelo de conduta que você escolheu, geralmente, são completamente cegas com relação a si mesmas.
Mas eu não me conformo e gostaria de te abrir os olhos, porque é patético demais vê-la tão entregue assim.
Enquanto pensa que ela, a maldade, te torna imponente, mal sabe o quanto da sua vulnerabilidade está sendo exposta. Seus medos, sua inveja, sua fragilidade estão aí, para qualquer um ver e, quem sabe, por seus iguais ser usada contra você. Infelizmente, há mais da sua espécie no mundo.
Mas talvez o que possa realmente te incomodar é o fato de estar servindo de auxílio. Já chegou a pensar que na vã tentativa de prejudicar, acaba servindo de instrumento para proteger?
O acaso é sempre um mistério!
Sinto muito, mas é a inexorável lei da vida: toda força positiva é capaz de reciclar a força negativa disparada e coloca-la a serviço do bem. Você não sabia disso, não é? É porque a força negativa consegue ser ainda mais ínfima e insignificante do que quem faz uso dela.
Tanto esforço desperdiçado! Como o que te move é maléfico, não atinge qualquer intuito, já que, ao contrário, o que me envolve é benéfico.
É uma questão de essência, caráter e intenção, sabe? Não, você não vai saber...
Portanto, trato de continuar andando feliz pela vida com a certeza de que ela transforma em escudo todas as tuas – e mais de quem for - más intenções.
Confesso, porém, que seu sadismo choca, no entanto, vê-la assim, confessando suas próprias fraquezas por meio de suas atitudes, não deixa de ser útil. Um dia, quem sabe, isso te faça cansar de ser tão pequena e te leve a decidir, enfim, progredir.
Lembre-se: nunca é tarde para tornar-se gente de verdade.  
Enquanto isso, sigo distraída, protegida por minha própria indiferença – essa que você não consegue praticar de jeito algum e que a faz se sentir tão inferior diante dos demais.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Gosto de você

Gosto de você naturalmente. Gostei quando soube dos seus gostos e quando percebi algumas das suas tantas motivações. Gostei mais, logo após, quando encontrei os seus olhos e neles avistei um porto calmo, embora profundo e quase todo inexplorado. Hoje, gosto de você porque isso me faz sentir paz. Sua voz não me causa estranhamento, sua pele não impõe distanciamento. Gosto de você devagarinho, mais a cada dia, mais a cada descoberta. E gosto ainda mais sempre que me mostra formas tão diferentes de descobrir-me em você.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Silenciei




De O entardecer de 11 de março
 

Silenciei porque havia muito a dizer. Mas tudo sem tradução. Ainda busco as palavras, investigo as emoções. A saída foi silenciar para observar melhor o que tem acontecido, o que tenho sentido, o que está se realizando. Há quem diga que silenciar é um dom. Pra mim sempre foi um suplício, mas agora silencio em paz. O que venho sentindo é tão forte que me cala completamente, que me mantém estática, as vezes perplexa. Embora chocante, é justamente esse silêncio que está me salvando agora. Minha alma anda exigente e seus gritos acumulam-se ao ponto de ocultarem-me os caminhos, as respostas mais básicas, toda a direção. Melhor permitir-me calar para, quem sabe, ouvir, traduzir, compreender. Costumo insistir tanto que até esqueci o quando a insistência me irrita. Deve ser isso. Teimar é um tipo de burrice, de adiamento. Agora que tive coragem de desligar meus sons, entendi: há momentos em que não adianta fazer nada, só esperar. E a espera mais sã e suportável acontece em meio a quietude.

domingo, 11 de março de 2012

O meu lugar


Finalmente encontrei o meu lugar. É aqui, nesse abraço. A sua boca, minha bússola, me leva sempre para a mesma direção. E eu obedeço. Não há risco de me perder, já  decorei o mapa que reflete em teus olhos, o espelho onde sempre me encontro. Diante de você eu sempre acho o meu norte.  

Sim, você é o meu espaço predileto, meu habitat natural, minha casa, onde adormeço em paz, sob a proteção desses muros que são teus braços. Nesse lugar perfeito, onde me encaixo e me sinto realmente acolhida, sou a dona do mundo.

E o nosso mundo é tão incrível! Nos entregamos aos cuidados um do outro naturalmente. A sua voz dentro dessa casa é a música que enche de paz o meu coração, a melodia que dá fim à minha espera. É sossego. Sua presença recobre este lugar inteiro com uma manta de amor, de entrega, de confiança. De sentir.

Nosso namoro é quentinho como um chalé na serra com a lareira acesa. E é calmo como a brisa que esvoaça as cortinas  e nos mostra a pintura da vida lá fora enquanto misturamos nossos corpos debaixo desses lençóis brancos de paz. 

Quando estamos juntos, não há partida, só chegada. A cada descoberta, cada revelação, um facho novo de luz invade nossas janelas. E quanto mais claramente nos vemos, mais nos damos ao prazer da admiração.  

Agora entendo porque esse seu cheiro sempre me pareceu tão familiar. E porque a minha pele misturou-se tão facilmente à sua desde o primeiro toque. Porque a sua presença sempre me trouxe a sensação de saciedade. Junto de você consigo experimentar a verdade daqueles sonhos tão distantes de menina.

Você é o telhado que me protege das tempestades, as paredes que guardam meus tesouros mais valiosos. Sob a sua presença eu me torno uma pessoa melhor. Tanto que os ornamentos desse lar dos sonhos ficam por conta dos nossos risos soltos. O bom humor que presenteamos um ao outro mantém nosso lugar limpo e arejado.  Ele nos protege das armadilhas, de qualquer perigo. Ele nos cerca de respeito e de segurança.

Vem, fecha a porta aí de fora e abre esses braços: meu lugar. Tudo que preciso está em você. Tudo o que eu mais quis está guardado nessa alma infinita que não para de lançar-se a novos limites e mostrar-me o quanto o horizonte de um homem e de uma mulher que se querem pode ir além do inimaginável . 

Quando me deito aqui, no calorzinho bom do seu peito, tudo faz sentido. É tudo tão fácil, tão possível. Você espanta meus medos, minha solidão. Somos tão feitos para isso! Você é o melhor lugar do mundo. É onde eu finalmente me sinto em casa. Onde amo estar.