quinta-feira, 23 de março de 2017

Voltei



Sim, eu voltei, mas muito daquela que você conheceu não veio comigo. Deixei parte do que costumava carregar pelos caminhos tortuosos que percorri enquanto estive fora. Como aquela mala lotada de ilusão. Eu costumava carrega-la aonde quer que fosse, lembra-se? Porque pensava que era esperança, mas sendo pura ilusão, apenas tornava minha caminhada mais lenta. Abandonei.

E com ela aquele romantismo juvenil. Devo te-lo perdido quando aprendi que amor e admiração só valem a viagem enquanto recíprocos. Aprendi na aula do abandono que tive nesse curso intensivo que fiz pra aprimorar minhas habilidades como pessoa.

E no Banco de um dos trens dessa viagem deixei algumas de minhas crenças. Algumas esqueci, outras abandonei propositalmente quando percebi que, no fundo, não eram boas companheiras. Algumas aventuras só se tornam aventuras quando encaramos o percurso sozinhos e desnudos.

A minha extroversão?
Ah, essa eu guardei no cofre, cuja senha apenas alguns raros possuem. É valiosa demais pra andar por aí exposta a todo tipo de intenção.

Minhas habilidades eu refinei. Uso como moeda de troca em estalagens que considero luxuosas o suficiente quando quero repousar meu valor. O tempo nos concede esse direito a certas extravagâncias. O mesmo tempo que ensina que nosso valor só pode ser avaliado com justiça por nós mesmos.

Dos bens que adquiri destaco o silêncio. Ele potencializa minhas capacidades de observação e percepção, que eu carrego pese o que pesar, onde quer que eu vá. São minhas apólices de seguro contra perda de tempo.

Troquei aquela velha lamparina que carregava nos olhos por um farol, cuja luz fica mais intensa diante de estímulos palpáveis.

E quando me vi cansada demais pra caminhar, aprendi que é possível remar no mar de minhas lágrimas. Elas não precisam rolar em vão. E desse mar aprendi a tirar algum alimento, alguma sustentação.

Vi todo tipo de paisagem. Senti saudades. Experimentei diferentes iguarias. Tudo muito típico, muito improvisado. E senti sede. Como senti sede! Até o ponto em que decidi guardar sempre um pouco no meu cantil, no lugar da água. Pra não perder jamais o desejo, pra nunca desistir da buscar por paisagens perfeitas e experiências extraordinárias.

O que jamais deixei pra trás foi meu caderninho e meu lápis, sempre seguros no meu bornal de memórias, com bolsos lotados da ânsia de registrar o que vi e senti. Que me perdoem as almas elevadas, mas quero guardar o que vi de feio tanto quanto o que vi de belo. Isso me fortalece.

E dentre os mercadores pelos quais passei, refinei meu senso de valor. Precisei trocar o que queria pelo que precisava em muitos momentos, até entender que o próprio querer é descartável. Foi aí que despi-me de sedas pra vestir-me de vento. O vento da liberdade.

Sim, eu voltei. Mas só porque precisava. Havia assuntos inacabados aqui. Mas não trouxe aquela bagagem que você me via arrastando pelos corredores. Essa eu troquei por libertação, por rodas na planta dos pés. Quando me olhar agora, não verá mais nenhum tipo de servidão e muito menos apegos. Isso me serviu de lenha quando precisei de fogo para iluminar noites escuras ao relento. Mas foi só ao queima-las que consegui chegar a um novo dia ensolarado.

De souvenir trouxe mais experiência. E um pouco de dureza de alma também. Fiquei mais firme e exigente, você irá notar. Meus bolsos vieram abarrotados de sentimentos, todo o tipo deles. Mas ainda guardo um pouco da doçura que provei ao deparar-me com o amor verdadeiro: um dos maiores privilégios que pude conhecer nessa viagem. O amor de quem não abandona, não desampara. O amor de amizades que não necessitam de presenças para existir. Que não se ofendem com ausências. O prêmio da compreensão.

Desculpe se não sou mais aquela que você conheceu, mas só depois de muito rastejar é que aprendi a escalar e ver a vida de cima. Isso me faz não querer mais voltar ao capítulo anterior. Pra quê, se posso reescrever minha história? Se posso ser quem eu quiser?

Sim, eu voltei.


terça-feira, 7 de março de 2017

Mulher


Que nunca mais te escravizem
Nem o corpo e nem a alma:
Por amar mais do que qualquer outro saberia amar
Por sentir mais do que qualquer outro conseguiria sentir
Por ver mais longe do que qualquer outro conseguiria alcançar
Por ser esse tanto que nenhum outro jamais conseguirá ser.
Por deter o poder que só a ti foi reservado.
Que saibam, enfim, amar-te como sempre mereceu
Tanto quanto é capaz de amar;
E que saibam, enfim, te ofertar
Tanto quanto é capaz de ofertar ao mundo;
E saibam, de uma vez por todas,
O quão valioso é um sorriso teu.
Que possa ser mulher
Livre, feliz, plena.
Que possa ser inteira
Do tamanho de teus sonhos.
Que possa.
Só isso.
Que possa tudo
sempre e finalmente
Como é direito teu.
E que o mundo aprenda a resplandecer
Com a sua realização
Tanto quanto resplandeceu sozinha, em silêncio
Com as glórias de outrem
Por pura grandeza de alma
De mãe, de esposa, de filha.
Que seja, enfim, sua vez
E que nunca mais ela seja tirada de você. 

08 de março: Dia Internacional da Mulher

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Sorri


Eu passei e vi
O homem de chinelos gastos
À beira da rodovia
Sorrindo sozinho
displicente
distraído
Então eu sorri.
Passei e vi
O moço novo
Puxando seu cachorro vira-latas
E eles pareciam tão amigos!
Então eu sorri.
Passei e vi
Na beira da estrada
O roxo gritante das quaresmeiras
Que florescem nessa época
Espontaneamente
No meio do mato
E enfeitam a vista
Quase quanto os manacás...
Quase!
Meus queridos manacás da serra
E sempre que os vejo, sorrio.
Eu passei e vi
Dias correndo tranquilos
Pessoas passando
E elas pareciam em paz.
Eu vi
Crianças brincando nos terraços
Com brinquedos de sucata
E elas se divertiam!
Então eu ri.
E passei.
Acho que ninguém me viu
E não tem problema.
Mas se me vissem
Queria lhes dar
em troca
um pouco desse riso
Que elas me deram
e da paz 
que me transmitiram
Quando eu só estava passando.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Esperança


Quando chegam as possibilidades, somem os medos, as inseguranças, as dúvidas. Tudo dá lugar à coragem: algo que, de tão essencialmente simples, nos assusta a maior parte do tempo.

Como as chances moldam nossas perspectivas! Quando elas surgem, até os pulmões funcionam melhor.

São mesmo os medos que nos cegam. E nos deprimem.

Mas como substituir os medos por coragens - muitas coragens - em meio à tempestade pesada? Em meio à solidão? Diante do incerto?

É... o incerto nos desestabiliza de uma forma cruel. Ele nunca falha. Mas isso, imagino, é fragilidade de fé. Como o medo.

Não é fácil lidar com nada disso, pois isolados ou unidos, esses sentimentos nos turvam a visão, drenam nossas forças.

Mas quando surgem as possibilidades... ah! Uma que seja, enfim... quando surgem, que lindo que é! Nos vemos tão claramente, tão sinceramente.

Há quem valorize o sofrimento como ferramenta de redenção, mas nada é tão poderoso como tudo que faz bem à nossa alma.

O medo é desastroso, enquanto a esperança é milagrosa. 

Que bendita a força da esperança!

Precisamos aprender a prolongar esse brilho nos olhos que a esperança dá; essa brisa refrigerada que ventila nossas vias respiratórias; essa visão aguçada do que realmente somos capazes.


Precisamos aprender mais com as boas sensações do que aprendemos com as ruins, para que, quem sabe, elas sejam mais recorrentes e definitivamente mais marcantes. 

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Não sofro.


Há quem diga que eu não sofro.
Há quem diga que eu não sinto.
Será o sorriso?
Talvez a distância,
Ou a conveniência.
Não sei.
Há quem pense que apenas pago por meus pecados.
Que nada é demais para mim.
E há quem torça, secretamente,
Para que eu sinta na pele,
O preço da minha liberdade.
Há quem ignore minhas lágrimas.
E quem apenas finja não as ver.
Mas também há quem as veja e as seque.
Há quem esteja enjoado de meus risos;
E quem goste verdadeiramente deles
A ponto de provocá-los.
Será a intensidade?
Sim, é tudo intenso.
Para o bem e para o mal.
Existe.
Dói. Corrói.
Mas também constrói.
E, admito, endurece.
Fortalece.

E há quem diga que eu não sinto nada...
Há, até, quem pense que eu não amo.
Ah se soubessem...
Se soubessem!
O tanto de tudo que vive em mim.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Colecionadora de saudades



Eu, que coleciono saudades, não consigo entender o fundamento de um dia como esse de hoje, de finados. Homenagear os mortos é para quem não mantém laços, porque os que mantém nunca consideram realmente mortos os seus.

Não há, para mim, a possibilidade de celebrar a ausência. Não há nem como justificar a falta que uma pessoa é capaz de fazer.  Muito menos de me conformar com algo que me foi imposto e para sempre.

Talvez, de todos os dias do ano, de todos os anos, de toda uma vida de saudade, este seja o único dia em que eu me dou o direito de não pensar naqueles que já perdi. Me recuso a homenagear qualquer coisa ligada à morte.

É verdade quando dizem que para tudo nesta vida há solução, exceto para a morte. Ela é covarde e fria. Ela tira de uma vez e não oferece nenhum tipo de redenção. E pior do que isso: não dá nem uma explicação. A vontade dela é suprema e absoluta e não há defesa contra ela.

A morte é feia. É ditadora. É a causadora de nossas maiores dores, e mais de uma vez. Ou, como é o meu caso, mais vezes do que se pode aguentar.

Falo de uma dor que ela nos oferta, lancinante, cruel, devastadora e que dura, simplesmente, para sempre. Um presente de mau gosto que você não quer, mas é obrigado a carregar até seu último dia. E que pode, como se não bastasse, se acumular com mais ‘presentes’ que ela é capaz de trazer.

Eu, que acumulo datas vazias, inundadas de lágrimas jamais consoláveis, entendo como ninguém, graças a morte, de gritos silenciosos; de dores improferíveis; de perdas irreparáveis; de um vazio que não se pode preencher jamais.

Entendo dessa injustiça que é perder, de um segundo para o outro, um alguém. O alguém. O nosso tudo.

E mais de uma vez. E mais, muito mais, do que um alguém.

Graças a morte, entendo de distâncias. Entendo de silêncios.

Sim, ficam as lembranças. E há também as flores. Poesias para enfeitar a dor. Mas tudo isso só faz doer mais.

As lembranças doem a cada amanhecer e se estendem ao longo do dia, em cada um daqueles instantes em que sabemos que falta alguém ali para provar aquele sabor, para ver aquela vista, para sentir aquele cheiro, para repartir aquela vida.

Hoje, só hoje, não chorarei a ausência de ninguém. Tenho todos os outros dias do ano para isso e eles já me bastam. E os lavo com minhas lágrimas pelos que se foram, pelos que perdi e tudo o que levaram com eles, não pelo que a morte é.

Não irei homenagear os mortos porque seria como festejar minha própria morte. A que acontece, aos poucos, aos pedaços, cada vez que sou obrigada a me afastar dos meus amados.


E mente quem fala em despedida. Não há. Nunca há.  Quem dera que houvesse.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Olhar para fora

As vezes, olhar para fora é tudo o que precisamos para aprendermos a olhar para dentro.

Tanto se fala sobre a importância de desbravarmos nossa alma e nos conhecermos profundamente. E eu concordo. O autoconhecimento é requisito básico para a liberdade, a autonomia, a independência. Quanto melhor nos conhecemos, mais bem nos posicionamos diante do mundo, dos outros seres humanos e seres vivos; e mais podemos oferecer a tudo que está à nossa volta. Quem bem se conhece, mais saudável é.

Só que ninguém nos dá uma receita para treinar esse olhar de dentro, uma vez que essa tarefa é uma das mais árduas e nunca tem fim. Se bem que é compreensível. Tudo que é íntimo exige métodos igualmente íntimos: cada um de nós tem seu jeito próprio de ver e aprender.

Mas se conselhos ainda servem para alguma coisa, aí vai o meu: olhe para fora!

Gosto quando chove à tardezinha. Eu fico na janela e me perco admirando as mecânicas da natureza. O som da chuva, mesmo quando bem forte, acalma; a alegria das plantas é algo que dá para sentir; e alguns pássaros, em particular, aguardam ansiosamente por isso, porque enfeitam o céu numa revoada numerosa e impressionante. Bailam e bailam debaixo das gotas caindo do céu que é todinho deles.

Gosto de observar os Quero-queros que pegaram nosso pátio para eles. Esses fazem ninhos no chão – o que é muito estranho! Eles, que podem refugiar-se e proteger suas crias nos locais mais altos, escolhem justamente o chão, e totalmente ao relento. E mesmo que caiam granizos, que a chuva venha acompanhada de um vento bravo, eles permanecem lá, imóveis, acima de seus ninhos, como se nada os abalasse. Assim que a chuva para, eles se levantam, sacodem a água das asas e voltam a gritar e rodear o terreno que agora é deles. Aguentam o frio também, a geada, e no outro dia, lá estão eles.

Que bom! Porque eu vou, com certeza, voltar a olhar lá pra fora para me abastecer de informações sobre mim aqui dentro e cada um desses elementos, essas criaturas, possuem uma responsabilidade imensa nesse meu crescimento, nesse exercício de admiração e adoração. Quando faço isso, sinto amor, sinto compaixão, sinto compreensão.  Sinto gratidão! Uma onda de paciência me invade e, como num passe de mágica, parece que entendo a maioria dos percalços da vida.

Pois é. Quando preciso me olhar por dentro eu sento no meu terraço e olho lá pra fora. Vejo os cachorros correndo pela grama e consigo até gargalhar com a diversão deles. Eu vejo as árvores carregadas de frutas e, imediatamente, sou impelida a elas. O sabor da fruta colhida e comida na hora abastece com dignidade qualquer lembrança do que realmente é bom.

Eu olho para a rua, as pessoas passando com crianças, carrinhos de bebê, na maior simplicidade. “Como será que elas estão?”, logo penso. Vejo os carros passando por cima do pontilhão. “Que música será que está tocando em cada um deles?”, me pergunto. Sem querer, sou levada a uma oração que pede, somente, que todas estejam bem e que cheguem bem em suas casas; que a paz esteja presente em seus corações; que a bondade seja asfalto em seus caminhos.

Nada disso é programado. Nada disso é intencional. Mas olhar para fora faz de mim, sem dúvida, uma pessoa melhor. Especialmente quando a chuva cai e faz coro a essa minha mania de poetizar a existência. Não serei hipócrita de dizer que o efeito é permanente. Eu também tenho dias bons e maus, tenho gentileza e maldade dentro de mim, perdões que ainda são difíceis de conceder, mas a essência disso tudo é, sim, permanente. Ela vai compondo a enciclopédia secreta que todos nós vamos preenchendo na alma ao longo da vida com o que aprendemos. E esse tipo de aprendizado, esse que a gente sente na pele, é o melhor de todos, porque não dá pra esquecer.

Espero que meu conselho sirva para você. Quando precisar se ver por dentro, se conhecer melhor, identificar o que te emociona, o que te eleva, procure perceber o que sente quando olha para fora, para a vida acontecendo bem na sua frente, tão simples, tão objetiva. Veja se algo ali te traz paz, te faz querer se dar aqueles minutos, só isso já revelaria muito, muito mesmo. E se sentir gratidão, ao menos um pouquinho que seja, meu amigo, essa minha fórmula boba deu certo pra você também, porque esse é o melhor sentimento que essa jornada tem a ensinar!

terça-feira, 17 de maio de 2016

Tempo

Tempo: a poesia da existência; a ameaça da existência. O mistério e a resposta universal. O prazo e o infinito. Tudo no mesmo invólucro de vento.

Tempo: o confiável impalpável. Invisível certeiro. Quase sempre traiçoeiro. Inquestionável tempo de ser. Do ser. Era mutante que nunca passa, mas que faz tudo passar.

Tempo: agora; ontem. Amanhã, talvez – para você, pois o tempo é certo para ele mesmo. E para a história, vital.

Uma nuvem de poeira. Um sopro. Um suspiro curto, ou as vezes demorado. Um arrastar de ossos. Um suplício. Um prêmio. Tempo: um milésimo de segundo por vez até que o relógio pare – para você, nunca para o tempo.

Nunca pára o tempo. Nunca finda o tempo. É ele que faz o findar. Das vidas, das eras, dos sonhos, das ilusões, das crenças. Dos erros e dos acertos. O tempo é o vendaval mais sublime de que se ouviu falar.

Tempo: condição suprema à vida. E à morte. Aliado das épocas, precisa te desintegrar para que elas sobrevivam. Porque o tudo é a prioridade. O tempo de ser só pode existir e tornar-se infinito através do ser, finito. Morto pelo tempo; vivo pelo tempo.

De tão abundante em si, torna-se escasso o raro tempo. Mas só para quem não é vento. Nem suspiro, nem nuvem. Nem firmamento.

E em troca de nossas vidas curtas, ganhamos... tempo! Uma ilusão de tempo. Uma fração do que tem o tempo. Um breve suspirar nessa existência. Uma única e implacável chance de fazer história e, quem sabe, se firmar no tempo.


Pelo menos por um tempo. 

sexta-feira, 20 de março de 2015

Amor silencioso


Alguns amores precisam ser silenciosos. Não podem ser demonstrados, cantados, recitados, declarados. E esses amores costumam ser dos mais imensos. Incuráveis. Mas é que algumas pessoas não estão preparadas para eles. São pessoas que não estão prontas para serem amadas porque, simplesmente, não sabem amar.

Como ter condições de acalentar justamente tão nobre sentimento sem conhecê-lo?

Então é melhor silenciar-lhes o afeto exacerbado, o cuidado que forçosamente é dedicado somente em orações. Súplicas para que estejam bem onde quer que vão; para que, de uma vez por todas, aprendam a amar para poderem desfrutar da dádiva que é ser amado.

Tarefa árdua essa. Amar em silêncio é triste e solitário. Mas se o outro lado não puder enxerga-lo em sua magnitude, quanto mais correspondê-lo, então é melhor que seja assim. Quieto. Preservado. Dói menos e permite que o bom sentimento continue sendo nutrido em algum lugar do espaço e do tempo.

Até que se atinja a compreensão dos porquês desse silêncio, o amor passa por estágios adversos e doloridos. Como todo amor não correspondido, gera decepção, mágoa, rancor, amargura. Até que, finalmente, leva à resignação. Sim, amar também cansa. E é nesta fase que se enxerga com clareza a impossibilidade do outro para esse amor agora.

Quem sabe um dia?

Amor de abnegação. Tão gigante que aceita até a deficiência do outro com paciência. Amor.

Talvez se transforme em sonho. Talvez numa ilusão. Ou, quem sabe, cresça e fortaleça e se torne, enfim, um objetivo. A meta de, por tamanha insistência,  tornar-se a chave capaz de destrancar o cadeado que bloqueia a saída para esse caminho tão melhor. Tudo é possível, afinal... é amor.

São formas de metamorfosear o suplício que é ter um presente único e valioso e não poder entrega-lo. É como uma composição genial que nunca foi musicada.  

Triste e assustador. Um paradoxo, já que as pessoas que não sabem amar são as que mais demonstram necessidade de amor. Carentes, medrosas, intimamente solitárias. Surdas. Que tipo de som rodeia alguém que obriga o amor a silenciar-lhe?

Elas não sabem da quietude em que vivem. Pensam que esses ruídos a que se impõem são as únicas melodias existentes. Pensar nisso leva de volta à oração. Que aprendam a ser amados! Que aprendam a amar! Logo!

Quanto tempo perdido de uma vida! Mas não há cura, apenas o tempo e sua mágica através da dor, da solidão. E do vazio. Até que não haja nenhuma outra alternativa a não ser se abrir para o que ainda não se sabe. Deve ser como começar a escola novamente: as primeiras letras, os primeiros números. A fonética da alma.  

É bom imaginar esse instante. Deve ser como nascer de novo. Só que desta vez, nascer de verdade.

E quando isso acontecer, quantos e quantos amores sairão da clausura do silêncio. Quantos pacotes encantados poderão ser, finalmente, entregues. Imagine o desembalar desses presentes... a surpresa... a descoberta. Ali, o tempo não parecerá perdido, e a espera, o silêncio, serão esquecidos. A música da existência ecoará naqueles ouvidos virgens que, a partir de então, estarão prontos para dar continuidade a essa sinfonia até  que nenhum outro de seus instrumentos precise ser silenciado outra vez. 



Palavras-chave: 
amor silencioso, amor, sentimento, poema, poesia, crônica, quietude, coração

domingo, 1 de março de 2015

Paredes

Essas paredes. Quanta história se acumula nelas. Quantas lágrimas e quantos risos. Quantos segredos e pecados. Quantas vidas elas abrigaram, cada qual com sua carga, sua confusão e seu valor.

Quanto há de vida e de morte impregnadas nessas estruturas que conseguem, quietinhas, frias, ir atravessando o tempo?

Quantas ventanias e tempestades elas contiveram do lado de fora?

E quanto mais essas paredes são capazes de suportar?

Quantos sonhos e frustrações elas testemunharam?

E quanto amor elas refugiaram até hoje?

Essas paredes centenárias. É impressionante pensar em algo que há tanto tempo guarda e protege. E como faz isso bem!

Abrigo nos inversos, refúgio nos verões, no entanto, tranquilas e serenas como em um eterno outono sem privar da primavera que não esmorece: sempre vem.

Até hoje, ao longo de tantas décadas, quanto de sono tranquilo elas já proporcionaram. Assim como novos despertares: da infância para a adolescência; da adolescência para a idade adulta; e desta para a dádiva de envelhecer junto e dentro de algo que se deixou possuir. Que cercou tantos ares e sustentou tantos céus. Infinitos céus!

Ornamentadas com quadros, fotografias, cores... suportes a todo tipo de registro da existência e, ainda assim, as mesmas paredes, o mesmo e fiel palco vertical de crenças, esperanças e saudades.

Paredes que um dia alguém sonhou em erguer para guardar tudo que tivesse e tudo o que fosse. E guardaram. Continuam guardando.

Quantas costas já devem ter apoiado? E mãos? E murros?

O projeto de uma casa até pode se tornar obsoleto com o passar do tempo, mas essas paredes jamais perderão sua poesia. São sustentáculos de algo muito maior do que uma casa. São sentimentos, emoções, lembranças, aprendizados sedimentados. Camadas e camadas de história. São feitas de muito mais do que tijolos e barro. Elas são feitas de insistência, de luta pela sobrevivência.

Apesar de serem construídas, entendem como ninguém de nascimentos e renascimentos. Dia após dia, sempre como se fosse a primeira vez, como se fosse a primeira vida que recebe.

Cúmplices incorruptíveis. Protetoras. Guardiãs. Paredes: alicerces de templos únicos, incontestáveis. Templos que, abastados ou humildes, são sempre inestimáveis. Verdadeiras caixas da existência. De muitas existências. Amiga, confidente e testemunha do tempo, certamente.

Será que sofrem com as perdas?

Será que se deixam contaminar com tanta boa e má humanidade?

Será que sentem saudade?

Talvez sejam apenas cofres invioláveis. O melhor e mais leal guardador de segredos.

Benditas sejam essas e todas as paredes, bem como todas as vidas que nelas se resguardam. De todas as vidas que reforçam as camadas dessas paredes, um sentimento lhes é comum: a genuína vontade de para elas sempre poderem voltar. 


Palavras-chave: 
paredes, recordações, lembranças, casa, lar, família, gratidão, amor, proteção, conforto, segurança, lar doce lar, home, sweet home, nosso lugar, seu lugar, nossas paredes

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Tão meu




Você é um erro que eu já havia cometido antes. Um erro que já havia prometido a mim mesma que não cometeria mais, um pedido íntimo para ser menos impulsiva. Mas não deu. Eu não consegui resistir àquele seu jeito de olhar e o mundo de possibilidades que eu enxerguei através disso. Não resisti ao calor, ao sufoco, à intensidade.  Havia uma chama, entende? Mas o tempo passa e apaga as chamas, com sorte deixa alguma brasa apenas. E eu sempre esqueço que o tempo vai passar e destruir essas chamas que eu uso para aquecer mais meus caminhos.

Você é um sonho que eu já havia sonhado antes. Mais uma daquelas fantasias que eu pensei que a idade curaria. Não deu de novo. Sou imune a certas curas e totalmente propensa a certas doenças. A doença do romantismo, por exemplo. É sempre ela que me empurra para os mesmos erros, as mesmas esperanças , efeitos colaterais que até passam, mas que deixam cicatrizes.

Você é uma vontade que eu já senti antes. Uma provocação, uma insistência, um absurdo. Você é a lição que eu pensei que já tivesse aprendido. É meu céu e meu inferno. É mais um dos meus grandes enganos à espera de algo definitivo. Sim, eu gosto do movimento, nunca digo não a ele, mas espero ansiosa por algo que me faça aquietar. E eu quis tanto que fosse você!

Deve ser porque, apesar de tudo isso, você é a presença que eu não havia tido ainda. Você é o retrato de um empenho que eu ainda não tinha experimentado; é a confluência de uma série de capacidades que eu não sabia que possuía. Você é a dedicação, a tolerância, a paciência, a vontade que eu não fazia ideia que pudesse ter.

Você é o encontro que eu ansiava, mas que eu nem achava que vinha. É a maior espera da minha vida! Você é um misto de satisfação e revolta que vem e volta, uma montanha russa instalada bem no meio do meu estômago. As vezes tenho vontade de te bater, mas todo o meu corpo só sabe mesmo é te carinhar.

Você é o amor que eu ainda não havia sentido. Um amor que eu não conhecia, não entendia, não  alcançava. Você é o símbolo do meu inimaginável, o meu maior desafio. Quantas e quantas vezes eu pensei em sair correndo de você! No entanto, são maiores ainda as vezes em que eu não consigo me ver longe disso tudo que você me traz todos os dias. Sim, foram muitas as vezes que eu pensei que isso era qualquer coisa, menos amor. Mas foram incontáveis as vezes em que eu tive certeza de que é o maior amor que eu já pude sentir.

Você é a contradição da minha própria verdade: a chama que o tempo apaga mas que acende de novo quando eu menos imagino; o erro que, de tanto ser cometido, acaba virando acerto; o sonho que se realiza todos os dias; a espera que dói mas da qual não consigo abrir mão. Você é a coragem que se renova conforme o perigo.

Talvez você seja tão meu, mas tão meu, que por isso mesmo causa essa bagunça toda. Afinal, só alguém realmente meu conseguiria desbravar tanto esse tudo que sou eu.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

A dor que me dei


Esta semana eu pisei na bola. Comecei assuntos desnecessários, deixei que as emoções perdessem o rumo, disse coisas que não queria dizer. Tudo porque sinto medo de perder. E quase perdi. Mas como tem acontecido desde que te conheci, aprendi mais uma grande lição.

Assustei-me com o tamanho do amor que sou capaz de sentir. Sabia que era gigante, mas não sabia que era tanto assim. Eu senti na pele a dor de ter magoado alguém tão essencial, tão vital pra mim. Experimentei algo que, até então, não passava de uma teoria romântica. Provei de um sofrimento maior do que a dor do arrependimento, do que a vergonha por ter perdido o controle, por ter cometido o mesmo erro que vivo condenando.

Amarguei horas de um dia e uma noite inteiros com pesar por tê-lo magoado. E por nada e tudo ao mesmo tempo. Nunca havia sentido coisa igual. Saber que te causei algo ruim consumiu meus pensamentos de uma forma assombrosa, machucou profundamente a minha alma. Como doeu! Fiquei sentindo as fisgadas do machucado segundo por segundo e não sabia o que fazer, parecia que aquilo nunca mais se curaria. Eu só podia esperar, e essa espera foi a tortura mais vingativa e cruel. Medo e dúvida. Ansiedade. Arrependimento. Amor.

O alívio só veio depois de ouvir a sua voz normalizada: o sinal de que estava mesmo disposto a me perdoar. Eu realmente não nasci para brigar com você. Não nasci para enxergar defeitos em você. Não nasci para te causar qualquer mal. Pensei que sofria pelas condições que nos cercam, mas esse sofrimento é cócega perto do que senti ao perceber que te machuquei.

Isso tudo serviu para comprovar que o nosso encontro não ocorreu ao acaso. Que a presença de um na vida do outro se deu em nome de algo maior, profundo, poderoso. Que você é parte de mim e que esse contato é anterior ao detectar dos olhos e ao toque das mãos.

Sou humana e sei que na ânsia de acertar ainda errarei outras vezes, mas eu quero que você saiba que a experiência me marcou tanto que nunca mais esquecerei a sensação triste e dolorosa que foi tê-lo ferido. É essa lembrança que me guiará daqui pra frente e me alertará quando eu correr o risco de errar com você novamente. Ela me ajudará a acertar mais e errar menos. É isso que me impedirá de seguir as emoções pobres que as vezes me dominam e me farão retomar a razão da grande verdade da minha vida: o amor imenso  e transformador que tenho por você.